Entrevista
João Milliet revela bastidores da mixagem e de projetos indicados ao Grammy Latino
Mixer fala sobre processo criativo, trabalhos com grandes nomes da música e o papel dos profissionais de bastidores
Foto: Rolling Stone Brasil
Antes de chegar ao público, cada faixa passa por uma fase decisiva: a mixagem, responsável por moldar a maneira como a música soa. Em conversa com a Rolling Stone Brasil, o mixer João Milliet abriu os bastidores desse trabalho e lembrou sua atuação com nomes como Liniker, Sandy, Anitta, JP e Chitãozinho & Xororó.
Neste ano, ele soma cerca de 10 projetos indicados ao Grammy Latino. Na mesma entrevista, tratou da força das redes sociais no hábito de ouvir música e do espaço da produção brasileira no mercado global.
Respeitar a visão de cada artista
Segundo Milliet, mixar um trabalho começa por entender as referências de quem o criou e honrar a proposta artística de cada projeto. Em vez de imprimir uma marca pessoal, o objetivo é realçar o que a canção tem de próprio e encontrar um ponto de equilíbrio entre voz, instrumentos e efeitos.
Ele resume a ideia com uma frase: “Eu não quero que as pessoas escutem um som e digam: ‘Ah, foi fulano de tal que fez’. Eu prefiro que as pessoas escutem o som e perguntem: ‘Quem foi que fez isso aí?’”, afirmou.
A bagagem musical do profissional, construída com o contato com gêneros variados desde a infância, ajudou a afinar essa percepção. Para ele, ajustes mínimos podem alterar por completo a forma como uma faixa é recebida, por isso é indispensável conhecer bem as referências do artista.
O diálogo com quem participa da produção pesa bastante. Há trabalhos que chegam ao mixer quase finalizados, enquanto outros deixam espaço para decisões mais livres. Antes de definir qualquer caminho, cabe ao profissional entender o que o artista e o produtor pretendem.
Grammy Latino e a música brasileira lá fora
Milliet afirma que as indicações ao Grammy Latino refletem um esforço coletivo. Para ele, um dos momentos mais marcantes acontece quando o artista ouve a mixagem finalizada e passa a gostar ainda mais da própria canção.
“Eu sinto que, quando o artista se emociona, ele consegue transbordar isso para as pessoas e contagiar”, explicou.
Entre os discos citados na conversa, ele destacou CAJU, de Liniker. Lembrou das discussões sobre a sequência das faixas e de como a cantora demonstrava clareza sobre o que queria transmitir na narrativa do álbum.
Milliet também defende que a música nacional não precisa imitar modelos estrangeiros para ganhar espaço fora do país. Na visão dele, o caminho está em criar obras pensadas para valorizar a própria identidade.
“É muito bonito quando você escuta uma música que é feita, pensada, trabalhada para valorizar essa identidade e não para tentar soar que nem a música americana”, disse.
Para ilustrar essa força, ele citou Gilberto Gil, Milton Nascimento, Sepultura, Angra e Tom Jobim, artistas que apresentaram diferentes expressões da música brasileira a plateias estrangeiras. Também apontou o interesse internacional pelo funk e reforçou a importância de explorar as particularidades culturais do país.
“A gente tem que valorizar o que a gente sabe fazer de bacana e não tentar copiar o que eles fazem”, completou.
Vídeos curtos, streaming e os desafios técnicos
O crescimento dos vídeos curtos faz com que a mixagem leve em conta como as faixas soam em diferentes aparelhos, sobretudo nos celulares. “Não adianta eu achar maravilhoso no estúdio e estar soando mal no telefone”, disse Milliet.
Como músico, ele também já trabalhou com André Matos e Sandy, experiência que influencia seu método. Nas faixas com voz, ele parte do canto e constrói a sonoridade ao redor dele, respeitando a interpretação e a dinâmica de cada música.
O trabalho invisível dos profissionais de bastidores
Mesmo sendo decisiva para o resultado final, a mixagem raramente é percebida pelo público. Segundo Milliet, o ouvinte costuma reparar nela quando algo atrapalha a escuta, embora uma mixagem bem feita não consiga suprir uma composição fraca.
Para ele, o papel do mixer é realçar a música e fazer com que o artista se reconheça no resultado.
“Eu quero que o artista se apaixone pela música dele mais do que ele se apaixonou”, resumiu.
Milliet também reivindica o reconhecimento dos mixers brasileiros e questiona a ideia de que um trabalho precisa ser enviado ao exterior para alcançar qualidade. Segundo ele, o país tem profissionais capazes de entregar produções relevantes e criar sonoridades próprias.
Mesmo longe dos holofotes, esses profissionais têm papel essencial na indústria musical: traduzir a visão do artista em uma experiência sonora que aproxima a canção do público.