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Ronnie Wood fala sobre show solo no Brasil, Rolling Stones e baixo

Guitarrista comenta a turnê solo que chega a São Paulo, a passagem pelo baixo do Jeff Beck Group e a fase atual dos Rolling Stones

Com informações de Rolling Stone Brasil

Foto: Rolling Stone Brasil

Ronnie Wood fala à RS sobre show solo no Brasil, Rolling Stones e baixo

Aos 79 anos, Ronnie Wood vive um momento de intensa atividade. Além dos dois discos gravados com os Rolling Stones, Hackney Diamonds (2023) e Foreign Tongues (2026), o guitarrista voltou a investir na carreira solo. Para celebrar seis décadas de trajetória, ele se apresenta no Brasil em 1º de novembro, em show único no Espaço Unimed, em São Paulo. Os ingressos estão disponíveis na Eventim.

O repertório combina canções dos Stones, composições do Jeff Beck Group e do Faces e músicas da fase solo. Também há releituras de clássicos de Bob Dylan, Aretha Franklin, Willie Dixon e outros nomes. O espetáculo dura cerca de duas horas e conta com a Ammo Band, grupo que acompanha o músico, além das vocalistas Chanel Haynes e Imelda May. A turnê já passou por países europeus nos últimos meses.

Em conversa com a Rolling Stone Brasil, o guitarrista brincou sobre a rara chance de liderar um grupo: “sou o líder dessa banda, o que não acontece com muita frequência”. Ele também revelou a intenção de gravar os shows da América do Sul, incluindo Brasil, Argentina e Chile, para transformar o material em um álbum ao vivo. Wood lembrou que dois integrantes da Ammo Band já tocavam com ele nos anos 1970: o baterista Andy Newmark e o baixista Willie Weeks, que participaram de seu primeiro disco solo, I’ve Got My Own Album to Do (1974).

“Eu nem sabia se Andy e Willie estavam vivos! Descobrir que estavam vivos e tocando é ainda melhor. Estão arrasando como nunca. Comecei esse projeto com eles, trouxe Johnny Lee Schell para me ajudar com a guitarra e tenho Andy Wallace, que é ótimo, nos teclados. Por fim, tenho a sorte de contar com Chanel Haynes e Imelda May nos vocais. Elas são muito talentosas e trazem sensualidade.”

Vale destacar a presença de Andy Wallace, nome que pode passar despercebido para quem não acompanha os bastidores. Ele é considerado um dos produtores e engenheiros de som mais respeitados do setor e já trabalhou com Nirvana, Prince, Linkin Park, Avenged Sevenfold, System of a Down, Jeff Buckley e com os brasileiros do Sepultura. Ou seja, parte da história recente da música passa pelas mãos do tecladista da banda de Wood.

Passagem decisiva pelo baixo

Se Wallace tem papel de destaque, a trajetória de Ronnie também é marcante. Ele começou no grupo de R&B (rhythm and blues) The Birds, nos anos 1960, e depois se juntou a Jeff Beck, um dos guitarristas mais influentes de todos os tempos. Foi no time de Beck que passou a tocar baixo, instrumento que não era o seu principal, e participou de dois discos considerados fundamentais para o rock pesado: Truth (1968) e Beck-Ola (1969). Mesmo sem ser baixista de formação, recebeu elogios de Jimi Hendrix, Gene Simmons (Kiss), Stanley Clarke e Larry Graham (Sly & the Family Stone).

Ao falar sobre essa fase e sua relação com o instrumento, ele afirma:

“Quando entrei para o Jeff Beck Group, tocávamos com duas guitarras e tínhamos Dave Ambrose no baixo. Mas Jeff me perguntou se eu toparia o desafio de tocar baixo. Jimi Hendrix gostava do meu jeito de tocar baixo. Então aceitei e me adaptei muito bem. Isso me deu uma nova perspectiva. Quando voltei a tocar guitarra, estava muito mais consciente da seção rítmica e da estrutura. Ao longo da minha carreira, sempre aceitei tarefas um pouco acima da minha capacidade e pensei: ‘quero encarar isso’.”

Os anos no Faces ao lado de Rod Stewart

Segundo Ronnie, a escolha do título do seu trabalho mais recente, Fearless (Destemido), reflete justamente essa disposição para encarar desafios. Trata-se de uma coletânea dupla, lançada em 2025 e divulgada na turnê atual, que reúne gravações de toda a sua carreira. Além do Jeff Beck Group, dos Rolling Stones e da fase solo, o tracklist traz faixas do Faces, grupo que ele integrou no início dos anos 1970 com Rod Stewart, colega com quem já havia trabalhado no projeto de Beck.

“Quando [o vocalista e guitarrista] Steve Marriott saiu [e a banda Small Faces virou apenas Faces], éramos influenciados por bandas funk, como Booker T. & the MGs e The Meters. Nossa seção rítmica era forte. Rod adicionou um toque de soul porque na época ele curtia Sam Cooke, Otis Redding e aqueles caras do blues gritado, além de gente como David Ruffin, do The Temptations.”

Enquanto Wood segue mais ativo do que nunca, Stewart se prepara para encerrar a carreira. No fim de setembro, o cantor anunciou uma turnê de despedida. Ao ser questionado sobre a decisão do colega, o guitarrista respondeu:

“Isso depende dele. Sei que ele teve algumas lesões jogando futebol ao longo dos anos e agora está mais velho [81 anos]. Ele está achando mais difícil se locomover e, para ser a igual ao que era, a velha chama está meio que se apagando um pouco, mas ainda existe na voz dele.”

Um dos integrantes de mais tempo nos Stones

Ronnie Wood entrou para os Rolling Stones em 1975, no lugar de Mick Taylor, após superar a concorrência de Jeff Beck e Rory Gallagher. A mudança gerou atritos com Rod Stewart e acabou levando ao fim do Faces. Os caminhos de Wood e dos Stones, porém, já vinham se cruzando havia tempo, em projetos e sessões diversas. Em 1974, ele ajudou a criar e gravar “It’s Only Rock ’n Roll (But I Like It)”, faixa que hoje abre o repertório do show marcado para o Brasil.

Mesmo tendo chegado a uma banda consolidada, com uma enorme lista de sucessos, Ronnie presenciou de tudo ao lado dos Stones: fases de altos e baixos, momentos mais ou menos produtivos e desavenças intensas entre Mick Jagger e Keith Richards. Ciente de que o grupo é sua atividade principal, ele explica de forma direta por que retomou a carreira solo após mais de 16 anos sem shows completos: “Enquanto os Stones descansam, imaginei que deveria manter minhas mãos ocupadas. Adoro fazer isso e sei que Mick Jagger também”.

Assim como o guitarrista, o grupo como um todo está mais prolífico, ainda que não toque ao vivo há mais de dois anos. Desde o fim dos anos 1980, os Stones não lançavam dois álbuns em um intervalo de três anos. O responsável por esse ritmo é Andrew Watt, produtor de Hackney Diamonds e Foreign Tongues, com 36 anos, bem mais novo que os integrantes do grupo.

“Desde os tempos de Jimmy Miller eles não eram tão prolíficos quanto agora. Andrew Watt dizia: ‘ok, pessoal, agora vamos gravar as músicas no estúdio’. Falava: ‘você fica aqui de segunda a sexta, Ronnie, quero todas as suas guitarras prontas’. Eu concordava. Aí ele: ‘Keith, quero suas guitarras prontas esta semana’. E o Keith respondia: ‘Bem, talvez eu faça na semana que vem’. Ele rebatia: ‘Não vai não, você fará isso esta semana, hoje mesmo, comece agora’. Bang! Ele nos dá o impulso necessário, o que é ótimo. É por isso que lançamos dois álbuns quase um após o outro.”

Além de já ter trabalhado com Ozzy Osbourne, Eddie Vedder, Miley Cyrus e Iggy Pop, Watt tem, na visão de Wood, um conhecimento musical pouco comum.

“Andrew Watt aprimorou nossa performance. Ele é muito criativo, toca instrumentos e até canta, então ele sabe do que está falando. O cara sabe do que está falando. Ele consegue se comunicar com a gente, os mais experientes. Tem a cabeça no lugar para um rapaz tão jovem. Sabe o que está fazendo.”

Na avaliação de Ronnie, Foreign Tongues supera Hackney Diamonds ao preservar a energia e o frescor do “rock ao vivo” e, ao mesmo tempo, apresentar ideias totalmente novas. “Mick estava praticamente bolando tudo ali do zero”, comenta ele, animado com o futuro. “Ano que vem ou em breve, adoraríamos tentar promover Foreign Tongues com uma turnê”, diz o guitarrista. O obstáculo, segundo outras entrevistas, é Keith Richards, que no momento não quer saber de excursões. Quem sabe Andrew Watt não convence Richards a voltar aos palcos também…

Ronnie Wood se apresenta com a Ammo Band no Espaço Unimed, em São Paulo, no dia 1º de novembro. Os ingressos estão à venda no site da Eventim.

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