Música brasileira
'Mentira' de Marcos Valle na ditadura é perpetuada em álbum em que Mariana Matsui revê 'Fotografia' de Tom Jobim
Nova gravação de Mariana Matsui recupera a canção de 1973 e revisita um clássico de Tom Jobim no primeiro álbum da cantora
Foto: Divulgação
Foto: Paulo Mancini
Em 1973, durante as gravações do disco “Previsão do tempo”, Marcos Valle se deixou envolver pelo swing do trio carioca Azymuth, grupo que misturava samba, funk e jazz. O clima sombrio da primeira metade dos anos 1970, período em que a repressão da ditadura pesava sobre o país, aparece no repertório autoral do disco. Nele se destaca “Mentira”, composição feita com o irmão, Paulo Sérgio Valle, e sustentada pelo balanço do arranjo.
A faixa entrou na trilha sonora da novela “Carinhoso”, exibida pela TV Globo naquele mesmo ano, e chegou a ser lançada em compacto simples, formato usado pelo mercado fonográfico brasileiro da época. Vinte e sete anos depois, a banda Planet Hemp reaproveitou a gravação como sample (trecho de uma música reutilizado em outra faixa) na versão original de “Contexto” (Marcelo D2, BNegão, Black Alien, Rafael Crespo e Zé Gonzalez, 2000).
Agora, 26 anos após o sample do Planet Hemp e 53 anos depois da gravação original de Marcos Valle, “Mentira” volta a ganhar vida na voz de Mariana Matsui, em seu primeiro álbum como cantora e compositora nipo-brasileira. O trabalho está previsto para chegar ao público na próxima quarta-feira, 28 de outubro, pela gravadora japonesa Rambling Records, com edição física em CD (formato de disco compacto).
Regravada pela artista com a participação do próprio Marcos Valle, “Mentira” é uma das nove faixas do álbum “Mariana Matsui”. O disco foi gravado no estúdio Da Pá Virada, em São Paulo (SP), com produção musical de Thiago Big Rabello, que também toca bateria e percussão. Completam o time Conrado Goys (violão e guitarra), Fábio Sá (baixo) e Salomão Soares (piano, Rhodes e sintetizadores).
Além de “Mentira”, Mariana revisita “Fotografia” (1959), uma das grandes obras do cancioneiro de Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994), composta por Tom Jobim sem parceiros. O álbum também conta com o violoncelista Jaques Morelenbaum em “Lullaby”, acalanto de autoria da própria Mariana, criado depois que ela descobriu a gravidez do primeiro filho. Um detalhe curioso: “Lullaby” foi registrada em uma única tomada, acompanhada pelo piano de Salomão Soares.
Grande sucesso do cancioneiro japonês desde que foi lançada como tema em janeiro de 1989, na voz de Hibari Misora (1937 – 1989), seis meses antes da morte da cantora, “Kawa no nagare no yō ni” (Akira Mitake e Yasushi Akimoto) ganha um toque de bossa nova na gravação de Mariana Matsui com Lisa Ono. A artista, assim como Matsui, também construiu sua identidade musical entre o Brasil e o Japão.