Shows
O segredo da alquimia de Jorge Ben Jor: por que nenhum show é igual ao outro
Sem metrônomo e sem roteiro fixo, o cantor transforma cada apresentação em um acontecimento irrepetível, segundo quem está no palco
Foto: Tenho Mais Discos Que Amigos!
Assistir a Jorge Ben Jor no Nubank Parque, em São Paulo, significa mergulhar em um transe compartilhado por toda a plateia, e essa sensação se estende muito além das duas horas e meia de música sem interrupção. Ao contrário do que se vê na maior parte das grandes produções atuais, o cantor dispensa o metrônomo digital, aparelho que marca o compasso e a cadência das batidas. A apresentação Alquimia Popular Brasileira, criada pela 30e, seguiu o modo que ele sempre adotou ao longo da carreira: deixar que a energia do instante conduza tudo.
O TMDQA! conversou com exclusividade com Lucas Real Fernandes, baterista da Banda do Zé Pretinho, para entender como essa química funciona nos bastidores. Entre improvisos, arranjos e escolhas feitas em cima do palco, ele apresenta os músicos que ajudaram Jorge Ben Jor a transformar o sábado (17) em uma noite inesquecível para 51 mil pessoas em São Paulo.
Expectativa alta e um show sem fórmula pronta
O clima já era de grande expectativa, afinal, 2026 marca os 50 anos de África Brasil (1976), considerado um dos discos mais revolucionários do planeta. Há dois anos, também se completou meio século de A Tábua de Esmeralda (1974).
Ainda assim, Jorge Ben Jor não depende de datas comemorativas para colocar sua obra em movimento. O público encontrou, no palco, a vitalidade de uma estrutura tradicional, em que o espetáculo se desenrola com a naturalidade e o frescor de um ensaio aberto. É justamente esse formato que faz com que cada show seja diferente do anterior.
Muitas produções contemporâneas apostam em trilhas guia e sequências programadas, recursos úteis e comuns no setor. Já a decisão de Jorge Ben Jor de abrir mão dessas amarras digitais faz parte da sua identidade cênica. Tempo, arranjos e ordem das músicas se definem no calor da apresentação.
Em depoimento concedido ao TMDQA!, o baterista Lucas Real, que também comanda o projeto autoral Novos Praianos, descreveu a dinâmica por trás do espetáculo:
“Não usamos clique. Não tem programação. É tudo definido e criado na hora. Não existe show repetido, cada show é um show. Não existe mais show assim no mundo inteiro”.
Quem organiza a parte musical é o maestro e trombonista Marlon Sette, que trabalha com Jorge Ben Jor desde 2013. Ele preparou 50 músicas para o show, mas a lista final só é fechada durante a apresentação. Em conversa com o TMDQA!, com exclusividade e generosidade, Marlon afirmou:
O Jorge sempre foi livre pra ir pra onde quiser. Ele tem o controle total do show. Confio muito nele. Nesses anos todos que acompanho ele, sempre me surpreende. Ele me deixa à vontade para escrever os arranjos. Me manda a música que ele quer e eu escrevo. O Jorge é único. O repertório dele faz a mágica acontecer. A gente sabe como começa e como termina, o meio é com ele. Tem um lance que não é daqui, é celestial, universal.”
A direção artística ficou a cargo de Otávio Juliano, enquanto Fabian France cuidou da monitoração de palco, função decisiva para que os músicos escutem com nitidez o que estão executando.
No palco, o time escolhido pelo próprio mestre reuniu Dadi Carvalho no baixo, Danilo Andrade e Dudu Borges nos teclados, Chrys Galante na percussão, Diogo Gomes no trompete e Jean Arnoult no saxofone. O naipe de cordas teve Monique Cabral e Tamara Barreto no violino, Jenni Cardoso na viola e Maria Clara Valle no violoncelo. Já as vozes principais ficaram com Paula Lima e Mammah Trindade.
O cenário, que se transformava em uma Lua brilhante, deu o toque final a um espetáculo grandioso. Ainda assim, faltou no palco o lendário Neném da Cuíca, nome de Neném Guimarães, pilar da Banda do Zé Pretinho. Presente na história de Jorge Ben Jor desde a gravação do antológico África Brasil (1976), ele é reconhecido pela simpatia e pela competência, além de ter marcado a apresentação no Coala Festival 2023 ao sambar com alegria diante da plateia.
Como funciona a alquimia de Jorge Ben Jor
Na prática, a alquimia consiste em transformar energia e matéria em algo mágico, e poucos artistas fazem isso com a mesma naturalidade. Não há coreografia definida, embora um grupo de dança africana tenha dado brilho ao ritual que tomou conta da música “Zumbi”.
Observar o público durante as mais de duas horas e meia de show impressiona. O estádio inteiro parecia um mar em movimento. Quando as pessoas não pulavam em sincronia, era quase impossível encontrar alguém parado. Os corpos oscilavam de um lado para o outro em um balanço contínuo, como se cada um estivesse embalado por um pêndulo invisível, do gramado até o alto das arquibancadas.
Esse efeito nasce do andamento orquestrado por Ben Jor, aos 87 anos. A plateia flutua enquanto os arranjos dialogam no improviso, guiados pela intuição de seu criador. O momento mais tocante aconteceu quando o músico, atrás dos óculos escuros, parou para observar a multidão. Ao trocar um trecho de “Alcohol” para dizer “gosto tanto de vocês”, ele levou as mãos ao rosto e chorou, aplaudido de pé pelo público.
Na reta final, o show se converteu em festa, como já é tradição. Houve espaço para homenagear Tim Maia em “W/Brasil” e “Do Leme ao Pontal”, para uma narração simulada de gol em “Fio Maravilha” e para a execução de “Costa do Marfim”, que ganhou leitura política entre os espectadores.
Em meio à tensão das eleições presidenciais, os versos sobre a “mulher do 22” foram recebidos com gritos de apoio a Lula, enquanto parte da plateia exibia o número 22 com as mãos. Um vídeo gravado por Guilherme Nobre, que estava na plateia, mostra o ídolo da MPB (Música Popular Brasileira) fazendo, de forma discreta, um gesto parecido com a letra L.
A apoteose chegou com luzes brancas e uma chuva de confetes em “Taj Mahal” e no pot-pourri de “Mas Que Nada”, “Chove Chuva” e “Por Causa de Você, Menina”. Em seguida, convidados como Edi Rock, Rappin’ Hood, Samuel Rosa, Rael, Wilson Simoninha, João Sabiá e Max de Castro subiram ao palco. Na despedida, Baby do Brasil cantou com toda a força “Curumim Chama Cunhatã que Eu Vou Contar (Todo Dia Era Dia de Índio)”, música que ela própria gravou.
A próxima chance de ver essa alquimia de perto será no festival Rock the Mountain, no Parque Municipal Prefeito Paulo Rattes, em Itaipava (Petrópolis/RJ). O evento terá dois fins de semana com a mesma programação: de 30 de outubro a 1º de novembro, com ingressos já esgotados, e de 6 a 8 de novembro.