Música

Livro e bastidores da música

Executivo que apostou em Paralamas e Legião Urbana conta bastidores do disco em livro

Memórias de Jorge Davidson revelam os bastidores de carreiras como as de Adriana Calcanhotto, Fernanda Abreu, Gabriel O Pensador e Skank, e mostram que os fatos sustentam as façanhas narradas

Com informações de g1

Foto: Arquivo pessoal Jorge Davidson

Jorge Davidson posa com Herbert Vianna, vocalista e guitarrista dos Paralamas do Sucesso, banda que indicou para a gravadora EMI em 1983 — Foto: Arquivo pessoal Jorge Davidson
Jorge Davidson posa com Herbert Vianna, vocalista e guitarrista dos Paralamas do Sucesso, banda que indicou para a gravadora EMI em 1983

Foto: Divulgação

Capa do livro 'Em sintonia com o sucesso – A arte de revelar talentos na música brasileira', de Jorge Davidson

Em “Em sintonia com o sucesso – A arte de revelar talentos na música brasileira”, livro de memórias com 380 páginas, Jorge Davidson percorre cerca de três décadas de atuação no mercado de discos, a maior parte delas como diretor artístico. A obra, publicada pela editora Gryphus, recebe quatro estrelas nesta resenha.

Nascido na Bahia e criado no Rio de Janeiro, Davidson começou no rádio antes de se tornar um dos executivos mais influentes da indústria fonográfica brasileira. Quando assumiu a diretoria artística da Sony Music, em fevereiro de 1993, ele vinha de um bom período na EMI (Electric and Musical Industries), onde ajudara a abrir espaço para bandas iniciantes como Blitz, Paralamas do Sucesso e Legião Urbana. Logo nos primeiros dias, deparou com o nome do Cidade Negra em uma lista de artistas a serem dispensados.

A banda fluminense de reggae havia emplacado um primeiro disco de sucesso, “Lute pra viver” (1990), mas perdeu força com o segundo, “Negro no poder” (1992), e estava prestes a ser descartada pela gravadora.

Uma guinada no som e no repertório

Admirador do reggae e convicto do potencial do grupo, Davidson convenceu a Sony a manter o Cidade Negra. Em seguida, reformulou o som e o repertório da banda, superando a resistência inicial do guitarrista Da Ghama e apostando em um reggae com acabamento pop.

Com a saída do vocalista Rás Bernardo, Toni Garrido assumiu o microfone, Liminha foi chamado para produzir o terceiro álbum e Davidson saiu em busca de canções. Assim chegou a “Onde você mora?”, composição de Marisa Monte com Nando Reis. O resultado foi “Sobre todas as forças”, lançado em 1994, que se transformou em grande sucesso de vendas.

A reviravolta do Cidade Negra é apenas um dos episódios que o autor recupera ao longo do livro, que também revela um pouco de sua vida pessoal, marcada pela praia e pelos campos de futebol, antes da entrada no universo profissional. Para o leitor, a obra é, no fundo, uma reflexão sobre o delicado equilíbrio entre arte e comércio, e os fatos confirmam as façanhas que Davidson atribui a si mesmo.

Da EMI à Legião Urbana

Durante o período no departamento internacional da EMI, empresa à qual chegou vindo do rádio, Davidson atuou como um meio-campo, indicando à direção artística as bandas Blitz e Paralamas do Sucesso, ambas contratadas por causa dessas recomendações. Com o bom desempenho, o principal executivo da multinacional o promoveu a diretor artístico, decisão que desagradou Miguel Plopschi e Renato Côrrea, que dividiam o cargo até então.

Já no novo posto, Davidson fechou outro grande negócio ao contratar a Legião Urbana. A decisão foi imediata, após ouvir uma fita cassete com composições de Renato Russo (1960 – 1996) da fase inicial do grupo. A gravação foi entregue por Pedro Ribeiro, irmão do baixista dos Paralamas do Sucesso, Bi Ribeiro, e teve efeito instantâneo. Segundo o livro, Davidson percebeu ali a genialidade de Renato Russo, e o episódio é relatado com orgulho pelo autor.

Disputas de poder e aliados influentes

Davidson não esconde as disputas de poder dentro das gravadoras, mas concentra a narrativa nas próprias decisões e se apresenta como uma espécie de herói, sempre pronto a proteger os artistas da falta de visão de presidentes e de equipes de marketing. Foi o que aconteceu quando ele ficou ao lado de Fernanda Abreu, contra toda a EMI, para defender a capa conceitual que a cantora, conhecida pelo trabalho na Blitz, idealizou para seu primeiro disco solo, “Sla radical dance disco club”, lançado em 1990.

O livro também mostra como as boas relações de Davidson com figuras poderosas do setor ajudaram suas apostas artísticas a render frutos comerciais. Entre elas, estão Mariozinho Rocha, diretor musical da TV Globo de 1989 a 2016, período em que decidia boa parte das músicas que entravam nas trilhas sonoras das novelas, e Antônio Augusto Amaral de Carvalho Filho, o Tutinha, dirigente da Jovem Pan, emissora paulistana com papel decisivo na promoção de músicas.

Foi a Tutinha que Davidson apresentou, por exemplo, as faixas do primeiro álbum de Gabriel O Pensador, ainda antes do lançamento, em 1993. O apoio do radialista foi essencial para o sucesso do disco, que trazia hits radiofônicos como “Lôraburra”. O segundo álbum, “Ainda é só o começo” (1995), não repetiu o desempenho, e o rapper ouviu uma bronca de Davidson quando lhe apresentou o repertório do terceiro trabalho.

No texto de orelha que escreveu para o livro, o próprio Gabriel O Pensador conta que Davidson considerou o repertório aquém de seu potencial criativo. Ele voltou para casa e compôs canções como “2345meia78” e “Cachimbo da paz”, decisivas para que “Quebra-cabeça” se tornasse um dos discos mais vendidos de 1997, ultrapassando a marca de um milhão de cópias.

Sony Music, BMG e outras contratações

Se na primeira passagem pela EMI Davidson ajudou a fortalecer o pop rock brasileiro, apostando em bandas já consagradas pelo público, o período na Sony Music foi determinante para o desenvolvimento das carreiras de Jota Quest, Skank e Chico Science & Nação Zumbi, todas contratadas sob sua direção artística.

Também foi decisiva a participação dele na trajetória de Adriana Calcanhotto, que, segundo o autor, era incompreendida na Sony quando ele assumiu a direção artística, em 1993. A virada veio com a entrada de “Mentiras” (1992) na trilha sonora da novela “Renascer” (TV Globo, 1993), o que impulsionou a carreira da cantora, já empresariada por Mauro Benzaquem, por indicação do próprio Davidson.

Os dados e contextualizações do livro são, em geral, precisos. A exceção está na página 218, onde o autor afirma que os CDs (discos compactos) dominavam o mercado em 1987. No Brasil, as chamadas “bolachinhas prateadas” só se tornaram hegemônicas na primeira metade da década de 1990. No mundo, os CDs ultrapassaram as vendas de LPs (discos de vinil de longa duração) somente em 1989. Ainda assim, o deslize não tira o mérito de uma obra que interessa a quem quer entender como a música é produzida antes de chegar ao público.

Davidson deu contribuição fundamental ao universo pop brasileiro durante sua passagem pela EMI e pela Sony Music. Na BMG (Bertelsmann Music Group), para onde migrou em 1997 a convite do presidente Luiz Oscar Niemeyer, o desempenho foi menos relevante do ponto de vista artístico.

Mesmo assim, merecem destaque as contratações de Lenine e de Ana Carolina, além da transformação do Pato Fu em uma banda de sucesso. A carreira solo de Lenine começou de fato em 1997, com o álbum “O dia em que faremos contato”, lançado com o apoio de Davidson. Na música popular, ele também orquestrou a contratação e o lançamento de Wanessa Camargo, em 2000, como cantora de pop adolescente.

Um olhar sobre o talento e o mercado

Não há dúvida de que Jorge Davidson tem um faro notável para descobrir e/ou aprimorar talentos na música brasileira. O livro presta um serviço valioso à bibliografia musical do país ao mostrar que o sucesso depende sobretudo do talento artístico, mas também da habilidade de levar um disco ao mercado. Sem essa habilidade, um grande talento pode nunca chegar aos ouvidos do público.

Em resumo, a obra mostra que conduzir um artista ao sucesso foi o ofício de Jorge Davidson, exercido com sensibilidade e olhar apurado ao longo de três décadas na indústria do disco.

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