Rock
Queens of the Stone Age fala sobre novo álbum, Lolla e saúde de Josh Homme
Em entrevista, a banda comenta o disco Perfecth, a volta ao Brasil no Lollapalooza 2027 e a recuperação de Josh Homme
Foto: Rolling Stone Brasil
A trajetória recente do Queens of the Stone Age foi marcada por momentos difíceis. Em 2024, a banda precisou cancelar grande parte de uma turnê depois que o vocalista e guitarrista Josh Homme passou por uma cirurgia de emergência de motivo nebuloso, pouco mais de um ano após anunciar que tinha câncer. A doença também o havia afastado do The Town 2023, em São Paulo. Não era a primeira vez que o músico encarava a morte de perto, mas ele conseguiu se recuperar.
Agora, o grupo volta com Perfecth (2026), seu nono álbum de estúdio, que chega ao mercado nesta sexta-feira, 30. Ao mesmo tempo, o Queens of the Stone Age passou a integrar a lista de atrações principais do Lollapalooza Brasil 2027, quase nove anos após sua última passagem pelo país. Os ingressos para o festival estão à venda pela Ticketmaster.
Em conversa com a Rolling Stone Brasil, o guitarrista Troy van Leeuwen explicou que o título do álbum vai além de um trocadilho sobre imperfeição. Segundo ele, ele expressa a maneira como a banda encarou a produção, deixando algumas arestas sem lapidação. Para o músico, o mais importante era captar a química entre os integrantes:
“Quando você entra numa sala com seus amigos para fazer música, com certeza acontecem erros e às vezes isso é até legal, porque você nunca sabe. Para mim, pessoalmente, como músico, se eu cometer um erro, eu vou repeti-lo e incorporá-lo à música. Então, é uma daquelas coisas em que, sim, quando você está lá na sala tentando criar algo, você está tentando aproveitar a magia entre os músicos.”
Um disco com menos acabamento e mais violões
Diferentemente da identidade construída pela banda com o hard rock pesado, Perfecth também se afasta da discografia do grupo ao explorar um lado mais acústico. De acordo com o guitarrista, essa característica sempre esteve presente no som do Queens, ainda que de forma pontual:
“Existe uma espécie de fio condutor ao longo dos últimos 25 anos, desde, por exemplo, as músicas do Lullabies to Paralyze (2005), como ‘Long Slow Goodbye’ e ‘I Never Came’, e depois, em Era Vulgaris (2007), temos ‘Suture Up Your Future’ e ‘River in the Road’. Definitivamente há algumas pistas que foram deixadas ao longo do caminho. Para mim, este disco expressa muito daquele tipo de música que acaba sendo meio esquecida, mas é uma parte muito importante do nosso som e de como nos sentimos.”
Esse caminho permitiu a Troy explorar um lado pouco lembrado de seu trabalho. Embora o público relacione a banda a afinações graves e riffs distorcidos, ele sempre trabalhou com texturas, usando guitarras de 12 cordas e pedal steel tanto em estúdio quanto nos shows. Ao perceber que uma abordagem mais minimalista combinava com aquelas canções, buscou servi-las da melhor forma possível:
“Acho que a simplicidade de uma boa música neste álbum é o que se destaca, sem tentar sobrecarregá-la com letras rebuscadas ou dizer as coisas de forma mais direta e simples. Acho que, neste disco, isso precisava ser mais expresso. Então, a atmosfera, talvez algo que eu faria, é bem sutil. Pessoalmente, eu só tento servir à música e acho que é disso que se trata este disco: a simplicidade da beleza, as imperfeições e as coisas que não são polidas.”
O primeiro single, “Easy Street”, conta com a participação da cantora country americana Nikki Lane e apresenta bem essa nova fase. A faixa combina glam rock, folk e um toque de música tradicional mexicana, já que a melodia lembra as canções de mariachi. Na letra, Homme mergulha em temas mais autodestrutivos:
“Drinking don’t help, but it sure blocks out the help
Don’t ruin the vibe, I do all that by myself
Sorry for your loss, but you lost”
[“Beber não ajuda, mas bloqueia a ajuda
Não arruine a vibe, já faço isso sozinho
Desculpe sua perda, mas você perdeu”]
Canções antigas ganham novo espaço
A guinada acústica começou antes, no EP (formato de disco com poucas faixas) ao vivo Alive in the Catacombs (2025), em que a banda refaz músicas de seu catálogo em versões acústicas. Esse trabalho funcionou como ponte entre o álbum In Times New Roman… (2023), que Troy van Leeuwen definiu como “pesado, brutal e raivoso”, e o disco atual.
Segundo o músico, várias faixas de Perfecth já existiam de uma forma ou de outra, mas nunca encontraram espaço nos trabalhos anteriores. É o caso de “Insignificant Other”, quase uma balada de letra amarga e cheia dos característicos riffs tortos de Homme, e da épica “Run Away From The Mob”, que fecha o disco. Ambas surgiram durante as sessões de In Times New Roman…. O grande destaque, porém, é uma canção que nasceu em outro projeto.
“Sunday” é uma regravação de uma composição feita por Josh Homme e Iggy Pop para o álbum Post Pop Depression (2016). Em Perfecth, a banda realça o clima de disco music da faixa, com um arranjo que, em alguns momentos, lembra uma versão sombria de “I Was Made for Lovin’ You”, do Kiss.
A decisão de regravar “Sunday” veio do precedente deixado por David Bowie, segundo Van Leeuwen:
“Sou um grande fã do Iggy e também um grande fã do Bowie. Acho que todos nós entendemos que, quando o Bowie fazia covers de ‘China Girl’ ou ‘Tonight’ ou qualquer uma das muitas músicas que ele gravava do Iggy, para mim, era sobre apresentar ao mundo algo que talvez eles nunca tivessem ouvido antes. Fazer um cover do Iggy é muito difícil, mas acho que chegamos num ponto em que, tipo, é french disco. Demos o nosso toque pessoal e só quero que as pessoas ouçam essa música, sinceramente.”
Apesar da virada, a banda não abandonou o peso. “Where the Goth Girls At?” é um bom exemplo de como o grupo consegue soar pesado e dançante ao mesmo tempo, criando uma atmosfera sombria e festiva. Já “Phantom Limb” troca as guitarras por violões, mas mantém a intensidade dos grandes rocks da banda.
No fim das contas, Perfecth inverte a lógica tradicional dos discos do grupo. Se antes o foco estava no hard rock, com uma ou duas faixas mais tranquilas, agora a proporção se inverte, como Van Leeuwen apontou.
Expectativa para a volta ao Brasil
A última vez que o Queens of the Stone Age se apresentou no país foi em 2018, quando abriu os shows da turnê do Foo Fighters em estádios. De acordo com Troy Van Leeuwen, o grupo tem tanta vontade de voltar quanto os fãs:
“Sinto que já passou da hora de voltar. Eu realmente adoro o público da América do Sul. A gente não vai para lá com frequência suficiente. Então é muito bom poder dizer: ‘Ok, vamos fazer o que tínhamos que fazer e aproveitar ao máximo enquanto estivermos lá’. E sim, nós tentamos ir a tantos lugares interessantes quanto possível, principalmente. Eu acho a América do Sul incrivelmente interessante.”
Ao ser questionado sobre lembranças de shows no Brasil, Troy citou sobretudo a apresentação no festival SWU, em 2010. A banda já havia tocado no país em 2001, quando se apresentou no Rock in Rio, mas o episódio que mais chamou atenção foi o baixista Nick Olivieri subindo ao palco nu, mais do que o show em si. Van Leeuwen, no entanto, ainda não integrava a formação naquela época. Ele entrou apenas no fim de 2002, durante a turnê do álbum Songs For The Deaf (2002). Por isso, o evento realizado em Itu foi sua primeira apresentação diante do público brasileiro. O guitarrista guarda, principalmente, a lembrança da energia da plateia:
“O que eu percebi é que o público é muito receptivo e sedento pela nossa música. E dá uma sensação de conexão com o público, como se tudo estivesse prestes a explodir. É por isso que fazemos isso.”
Recuperação de Josh Homme
A ausência da banda no Brasil não deveria ter durado quase nove anos. Como já foi citado, o grupo estava escalado para o The Town 2023, em São Paulo, mas cancelou a apresentação poucos dias antes, alegando “orientações médicas”. Em junho daquele ano, Homme havia revelado o diagnóstico de câncer, mas garantiu ao público que estava fora de perigo. Como a banda perdeu apenas essa data no Brasil e seguiu com a turnê The End is Nero, muita gente acreditou que tudo estava bem.
Em julho de 2024, porém, o restante da turnê foi suspenso, já que o vocalista e guitarrista precisou passar por uma cirurgia de emergência. Van Leeuwen não quis entrar em detalhes sobre o estado de saúde de Homme, mas afirmou que o músico passou por uma série de operações complicadas para salvar sua vida nesse período.
Acompanhar de perto a luta do colega de longa data, que integra o Queens of the Stone Age desde 2002 e completará 25 anos de banda em 2027, levou Van Leeuwen a dar mais valor à própria vida. Depois de anos marcados pelos excessos típicos do rock, o grupo parece ter entendido a passagem do tempo e passou a se cuidar:
“Agora, há um foco real em sermos os mais saudáveis possível. Não apenas para estarmos presentes para a nossa arte e o nosso público, mas também para os nossos amigos, entes queridos e família. É assim que vejo tudo agora. É importante olhar para si mesmo no espelho e dizer: ‘Ok, eu gosto desse cara e vou garantir que ele esteja bem’. Então, sim, acho que é mais ou menos aí que todos nós estamos agora.”